quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Auto dos Danados

(imagem colhida na internet)

Não são só os ratos, aliás, que moram conosco no sótão. Possuímos um jardim zoológico completo de formigas, melgas, traças, centopéias, aranhas, grilos, carunchos, que presumo alimentarem-se da mesma falta de comida do que nós, sem contar as borboletas que se esmagam contra as lâmpadas, no verão, e se reduzem de imediato a um pozinho escuro de verniz. E há os pombos. E as rolas. E os barcos, como lesmas, no Tejo. E os vizinhos em camisola interior, incapazes de voar, crucificados nos craveiros das varandas. E tu e eu, cada vez mais transparentes e magros, a prepararmos o pequeno almoço de meio grama de heroína da injeção da manhã.


Antonio Lobo Antunes in Auto dos Danados

sexta-feira, 8 de maio de 2009

A Palavra Seda

Imagem colhida na net


A atmosfera que te envolve
atinge tais atmosferas
que transforma muitas coisas
que te concernem, ou cercam.

E como as coisas, palavras
impossíveis de poema:
exemplo, a palavra ouro,
e até este poema, seda.

É certo que tua pessoa
não faz dormir, mas desperta;
nem é sedante, palavra
derivada da de seda.

E é certo que a superfície
de tua pessoa externa,
de tua pele e de tudo
isso que em ti se tateia,

nada tem da superfície
luxuosa, falsa, acadêmica,
de uma superfície quando
se diz que ela é “como seda”.

Mas em ti, em algum ponto,
talvez fora de ti mesma,
talvez mesmo no ambiente
que retesas quando chegas,

há algo de muscular,
de animal, carnal, pantera,
de felino, da substância
felina, ou sua maneira,

de animal, de animalmente,
de cru, de cruel, de crueza, que sob a palavra gasta
persiste na coisa seda.

(Quaderna, 1956-1959)


A Palavra Seda - João Cabral de Melo Neto

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

O Acaso

(imagem da net)


Cai
a pluma
rítmico suspense do sinistro
nas espumas primordiais
de onde há pouco sobressaltara seu delírio a um cimo fenescido
pela neutralidade idêntica do abismo


O Acasao - Stéphane Mallarmé

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Preludes Intenses Pour Ceux Qui Ont Perdu La Memoire D´Amour

(imagem da web)


Prends-moi. Ta bouchede lin sur ma bouche
Austère. Prends-moi MAINTENANT, AVANT
Avant que la carnation se défsse en sang, avant
La mort, mort, amour, ma mort, prend-moi
Enfonce ta main, respire mon soufflé, avale
En cadence ma sombre agonie.

Tempus du corps, ce tromps-là, de la faim
Du dedam. Corps se connaissant, lentement.
Um soleil de diamant nourrissant le ventre,
Lê fait de ta chair, la mienne.
Fuyante
Et sur nous ce temps futur tissant
Tissant la grande toile. Au-dessus de nous l avie
La vie se répandant. Cyclique. Sécoulant

Tu te reconnais vivant sous um joug nouveau
Tu te mets em ordre. Et moi, deliqüescente: amour, amour,
Avant le mur, avant la terre, je dois
Je dois crier ma parole, un charmant,
Flanc
Dans l´ardent tessiture d´un rocher. Je dois crier
Je le dis à moi meme. Mais à côtè de toi, je me couche
Immense. Em pourpre. Em argent. Em douceur.


Preludes Intenses Pour Ceux Qui Ont Perdu La Memoire D´Amour - Hilda Hilst
Da antologia: Poésie du Brésil, organizada por Lourdes Sarmento (Revista Vericuetos, número 13), Paris, setembro de 1997. Tradutores: Lucilo Varejão Neto e Maria Nilde Pessoa.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

If I can stop one heart from breaking

(imagem da net)

"If I can stop one heart from breaking

I shall not live in vain:

If can ease one life the aching,

Or cool one pain,

Or help one fainting robin

Unto his nest again,

I shall not live in vain."

If I can stop one heart from breaking - Emily Dickinson

terça-feira, 15 de julho de 2008

Instrucciones para llorar


Dejando de lado los motivos, atengámonos a la manera de llorar, entendiendo por esto um llanto que no ingrese em el escândalo, ni que insulte a la sonrisa com su paralela y torpe semejanza. El llanto médio u ordinário consite em uma contracción general del rostro y um sonido espamódico acompañado de lágrimas y mocos, estos últimos al final, pues el llanto se acaba em el momento em que uno se suena energicamente.

Para llorar, dirija la imaginación hacia usted mismo, y si esto lê resulta imposible por haber contraído el hánoto de creer em el mundo exterior, piense em um pato cubierto de hormigas o em esos golfos del estrecho de Magallanes em los que no entra nadie, nunca.

Llegado em llanto, se tapará com decoro el rostro usando ambas manos com la palma hacia dentro. Los niños llorarán com la manga del saco contra la cara, y de preferência en um rincón Del cuarto. Duración media del llanto, três minutos.


Histórias de Cronopios y de Famas – Instrucciones para llorar - Julio Cortázar.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Liberdade

(imagem da web)

Aqui nesta praia onde

Não há nenhum vestígio de impureza,

Aqui onde há somente

Ondas tombando ininterruptamente,

Puro espaço e lúcida unidade,

Aqui o tempo apaixonadamente

Encontra a própria liberdade.

Liberdade - Sophia de Mello Breyner Andresen